Sacolas

Dia desses, quando descia do metrô na estação Maracanã, pensei na importância das sacolas. Explico. O dia estava chuvoso e, ao sair da estação, vi várias pessoas que, como eu, tiravam de suas bolsas o guarda-chuva envolto em uma sacola de plástico.
Conheci um professor, na minha época de vestibulanda, que afirmava coincidirem todas as questões de geografia em uma resposta: concentração de renda ou desigualdade social. Percebi, que o caso das sacolas tem um “quê” geográfico por tratar também da desigualdade social.
Você percebe o nível social de uma pessoa, em um dia chuvoso, pela sacola que ela utiliza para guarda o guarda-chuva (desculpe a redundância). Tem os moradores de bairros sem um grande supermercado: eles utilizam um saco preto, já que o estabelecimento não tem recursos para confeccionar sacolas com a sua marca. Os que freqüentam supermercado maiores, são maioria e, por isso, os mais fáceis de se encontrar em dias de chuva; eles exibem a sacola do lugar onde geralmente fizeram suas últimas compras.
No universo dos “sacoleiros” também existe uma elite; são os mais privilegiados, que não utilizam sacolas de supermercado, mas de lojas de marca. A jovem-madame vai sair de casa, está chovendo, então sua empregada diz: “Tá levando o guarda-chuva, para caminhar pelo estacionamento da sua faculdade?” Quando ela responde afirmativamente, a outra continua: “E a sacola? Onde você vai colocar o guarda chuva molhado?” Ela vai, pega sua bolsa da Farm, retirando suas roupas recém-compradas, que ainda estavam lá dentro, coloca o guarda-chuva na sacola de grife e sai.
Sacolas podem ser inscritas no senso – “Qual sacola você usa para pôr o guarda-chuva?” – o IBGE obterá uma nova forma de avaliar as condições sociais no país.

Seja qual for sua sacola, mesmo sem pensar nela com tal profundidade, só não a esqueça m um dia chuvoso!

Escrito dia 08/10/2004, e postado aqui em homenagem às águas de março que timidamente vieram nessa semana.

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