domingo, 29 de janeiro de 2017

Vem criança

Nasce uma criança
Nasce uma mãe
Nasce um pai
Nasce avó, avô, titios, primos
Nasce amor
farto
gratuito
inédito
e bobo
que faz careta, voz fina e gugu-dadá

Vem criança
aqui nesse mundinho
você tem lugar
Vem criança
Vem que a gente precisa
do seu olhar para se encantar
do seu toque para atenuar
da sua risada para aliviar
da sua vida pra poetizar

Você é bem vinda, minha pequena
Você faz o amor se multiplicar


[Para a minha sobrinha Manuela. Pois é, eu sou titia dela.]

domingo, 8 de maio de 2016

Ela é

Maravilhar-se ainda é algo ao qual quer se apegar. Mas agora parece tão distante, abstrato. Tão diferente de uma vida concreta como a que tem hoje.

É concreto o cachinho dourado. E também são concretas as fraldas, lenços umedecidos e o cheiro do cocô. Os brinquedos nos quais tropeça. Os gritos, os choros. A comida deixada no chão. O abraço. O beijo molhado de baba. As primeiras palavras. As birras já não inocentes.

Em um mundo de concretudes ela é resistente e ainda mantém guardada, às vezes tão escondida que perdida ou esquecida, a esperança do maravilhar-se. Inclusive e talvez principalmente, ela espera ver a maravilha em meio a esse concreto.

Em forma de cachinhos com suas curvas arquitetônicas refletindo o brilho do sol que entra pela janela. Em forma de fraldas sujas acompanhadas com a gratidão de que vai tudo bem.  Dos brinquedos que colorem e preenchem a casa e a fazem aceitar a bagunça da vida. Dos gritos e choros que terminam por amolecer seu coração. Da comida deixada no chão que se torna apenas um detalhe diante da satisfação de uma refeição feita. Do abraço e do beijo babado que não há quem pague. Das primeiras palavras comemoradas com tanto entusiasmo. Das birras e com elas o sentimento de assombro – Quando foi que me tornei responsável por educar alguém?

Céu, sol, lua estrelas continuam com seu encanto. Mas é uma arte ainda mais avançada ver a beleza do caos. O belo do dia árduo e áspero. A maravilha está lá também. Há poesia nesse mundo preenchido de novidades, alegrias, tristezas, recompensas e frustrações.


Ela é resistente. Tem toda uma vida pela frente para insistir em ter esperança. Para acreditar em cada recomeço e chance que Deus lhe dá. Ela é uma maratonista com paciência que ela mesma não sabe ser capaz de ter. Não é uma heroína, é sobrevivente. Não é uma vítima, é agente. Ela acerta, ela erra, ela continua o seu caminho. Ela é mãe.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Rastro de flores

Lá estava o palito com os dois tracinhos à mostra. E lá estavam os mais novos pai e mãe com as caras de surpresos, felizes e assustados tão comuns nesse momento. - "Agora é para valer, estou mesmo grávida!" Era dezembro de 2013.

Um misto de emoções morou em meu coração nos próximos meses. Uma felicidade que me fazia enxergar o mundo mais rosa. Afinal eu teria uma menina. E não minto ao contar: por uma feliz coincidência as árvores com flores rosas deixavam seus rastros pela rua em que eu caminhava diariamente. Era um lembrete tão singelo de que alguém estava chegando para deixar o meu caminho mais bonito."Eu vou ser mãe!"

Por outro lado um medo pesado da responsabilidade já estava sobre mim. Nos próximos anos, Deus me usaria como um instrumento para cuidar de um ser extremamente dependente de mim e do meu marido. "E se eu não der conta? E se eu falhar? Será que consigo?"As interrogações povoavam a cabeça. Ai ai ai, "Eu vou ser mãe!"

No meio de toda a novidade, as escolhas da maternidade começaram a se apresentar. Dentre elas o parto. Sempre foi tão natural para mim, optar pelo parto normal, Foi assim que a minha mãe me teve, e assim eu me imaginava tendo os meus filhos. Mal sabia eu que uma escolha, a princípio despretensiosa pelo parto normal, me colocaria no meio de um debate que tem se aflorado nos últimos tempos do Brasil.

Ao optar pelo normal, não o fiz por militância. E ainda hoje não defendo o parto normal como uma regra. Acredito que ele tem o seu lugar, assim como a cesárea. Mas me entristeço ao ver mulheres que nem sequer consideram essa opção. A primeira vez que mencionei a minha escolha para a  ginecologista do pré natal, não poderia ter uma resposta mais desanimadora. "É, vamos ver como vai a ser a sua gravidez, né?"

A partir daí, me preparei para o parto por conta própria. Li livros e sites que me deram informações suficientes para que eu entendesse o que viria a acontecer. Mas na hora... Eu fui só emoção! Cheguei à maternidade pela terceira vez já prestes a ter a Cléo. Meu marido me perguntou se eu queria que ele mostrasse o plano de parto para a equipe médica. Só respondi: "Léo, não quero saber de plano de parto, só quero que essa menina nasça!"

Não tem como descrever a maior emoção que já senti na vida. Deus foi muito bondoso comigo. Eu encontrei vaga no hospital na emergência (essa era a única maneira de ter o parto normal, já que não pude contar com a minha médica). Tive uma boa equipe médica comigo. E um trabalho de parto rápido - cerca de uma hora e meia depois, Cléo já estava em meus braços.

Nesses 11 meses de vida da Cléo eu já vivi muitas outras aventuras ao descobrir como é ser mãe. É mesmo um amor incondicional. E também percebi que as escolhas que fiz na gravidez eram só o começo de muitas outras que faço e ainda farei envolvendo a vida da Cléo. Por exemplo, escolhi continuar amamentando ela até hoje e mais uma vez, assim como na escolha pelo parto normal, isso me coloca em uma posição polêmica, nem sempre compreendida.

Se posso compartilhar algum aprendizado desses primeiros momentos como mãe, eu falaria que a maternidade é uma arte de fazer escolhas. Eu quero fazê-las de formas consciente, e coerente com as convicções que tenho formado. Mas também quero ser capaz de respeitar o próximo e não impor os meus posicionamentos a ninguém. Quero respeitar e ser respeitada. E quero ser livre para ser a mamãe da Cléo, para amá-la e ajudá-la a ser alguém que deixe o seu rastro de flores não só em meu próprio caminho, mas em todos os lugares por onde ela passar.

terça-feira, 12 de maio de 2015

A gaveta

Há uma gaveta
Lá naquela mesa velhinha
Cheia de pó

Estão lá tudo o que um dia escrevi de ruim e de bom
E também o que foi escrito apenas na imaginação

No reino da gaveta só há uma regra
Tá escrito? Pode entrar
Mas o que fazer para sair do reino
É difícil explicar

Há dias de euforia 
Neles, alguns conseguem alforria
Há dias de crise
Então é como se o mundo lá fora não existisse

Para aquelas folhas reais e imaginárias,
o fundo da gaveta parece, por vezes, acolhedor
"Aqui é mesmo o meu lar", algumas dizem
Mais há as que se sentem peregrinas
"Não pertenço a esse lugar"
 Elas me chamam
"Ei, quando você vai me desengavetar?"


 

sexta-feira, 5 de julho de 2013

À caneta e lápis

Há quem seja caneta
Traço firme
Cores fortes
Não é desapercebido
o errar e o acertar

Há quem seja lápis
Escreve, apaga
Ora é forte, ora é fraco
Menos arriscado
Dá pra disfarçar

Tem dias que sou caneta
É tudo definitivo
É certeiro
E se errar, errei e pronto
Que vejam o liquid paper
E a evidência de que não acertei

Ah, mas tem dias que é tão bom ser lápis
Me deixe aqui no meu canto
Eu erro, mas apago
Eu acerto, mas quem saberá?
Se foi de primeira, de segunda, de terceira...
Pouco vai importar

Para alguns só vale escrita de caneta
Outros aceitam à lápis
Proponho uma nova reforma
Deixe eu ser lápis
Deixe eu ser caneta
Deixe eu errar, acertar, arriscar,
me esconder, me mostrar, apagar
Deixe eu viver, escrever, poetizar

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

A blusa perdida

Um dia ele comprou uma blusa muito bonita, do tipo que já sabia que ía virar sua xodó. Foi assim: estava na loja com as mãos cheias de ítens da liquidação. Ah, mas aquela blusa. Ele a olhou e disse para si mesmo: "Só estou levando produtos mais baratos, vou ser legal comigo mesmo e vou levar essa blusa aqui que está com um preço maior." E levou.

Esperou um dia especial, porque não se usa uma blusa dessas em qualquer ocasião. Ele a usou e adotou uma técnica desenvolvida por ele. Vou revelar para vocês. Você quer fazer sua peça de roupa durar mais? Ele sempre faz desse jeito: ao chegar em casa, ao invés de colocar logo uma roupa nova para ser lavada, pendura a peça no cabide e o cabide no varal. Assim, a roupa vai pegar vento e não ficará com cheiro de suor. Ao mesmo tempo, ela fica pronta para o próximo uso, bem esticadinha. Não é genial?

Tantas peças já passaram pelo mesmo processo, ele não faria diferente com a sua mais nova blusa favorita. Lá colocou e se esqueceu da vida. Passaram-se semanas, acho que um mês. Chegara o dia de usar novamente o ítem mais valorizado do seu guarda-roupa. Começou a procura, que não resultava em nada, pois a peça misteriosamente sumira.

Onde a blusa querida haveria de estar? Nessas horas entra em ação, a arma secreta, que ao menos alguns homens têm, para encontrar qualquer coisa perdida: a esposa. Mesmo com todo o seu poder para encontrar as coisas mais escondidas, a esposa não conseguiu. Mas ela contribuiu para desvendar o mistério da blusa preferida.

A esposa o levou a uma reconstituição do último dia em que usara a blusa. "Vamos lá, qual foi a última vez? O você fez depois de usá-la?" Ele se lembrou então de sua super técnica para a maior duração das roupas. Um insigth o levou até à janela próxima ao varal. Ele olhou para baixo e lá estava a blusa dolorosamente contorcida, no telhado da garagem de um dos vizinhos.

O resgate foi trabalhoso, mas aconteceu sem grandes problemas. Triste mesmo foi a expressão dele vendo a blusa desbotada em uma das mangas. A esposa lavou a blusa e a guardou. Até hoje ela está lá no guarda-roupas dele, dobrada, sem perspectiva de ser usada novamente.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Escrever por escrever só escrever
Digitar por digitar só o digito ar
Digito o ar
Dito o ar
Digo o ar
Diz agitar
Agito ar
Ar
Arrrrrrrgitado


E a música é para inspirar
Inspiro o ar
E as pessoas são para dizer agitar
E eu sou só para escrever digitar
Desajeitar e depois me deitar